terça-feira, 3 de novembro de 2009

Vizinhança

Comprei um pacote de bombons Ferrero Rocher e mandei embalar com papel de presente dourado. A moça do supermercado colocou uma fita para enfeitar o pacote. Caprichou e cortou as pontas do laço criando um triangulo invertido.
Saí com o pacote na mão, receosa da minha escolha. Pensei em comprar velas. Sabonetes perfumados. E se ela estiver de dieta? Se for diabética? Arrisquei.
Foi a primeira vez que comprei um presente para uma vizinha. Quando era criança, a minha mãe me mandava entregar panetones na porta da casa ao lado. Morria de vergonha.
Entrei pisando firme na floricultura e pedi para falar com a dona Nilza. A vendedora anunciou em uma sala nos fundos da loja:
_ Dona Nilza, tem uma moça aqui que quer falar com a senhora.
Foi a senha para que eu pudesse entrar.
Expliquei que era um docinho para agradecer a atenção com a gata Mia. Aquela felina suicida.
A dona Nilza sorriu. Disse que eu não precisava ter me incomodado.

Quando voltei da praia no domingo, emburrada por ter que deixar a areia e a água para trabalhar, encontrei só um bilhetinho no meu apartamento:

Vizinha!

Fomos informados pelo apartamento 103 que a sua gata caiu da janela e que a dona da loja de presentes a recolheu.

Apartamento 203
Ana e Tiago

Saí na mesma hora para a rua, mas a loja estava fechada no domingo. A vizinha regava as plantas de chambre, na sacada. Ela disse que a gata Mia tinha caído no toldo e, depois, no chão. Mas que passava bem.
A vizinha de chambre também tem um gato de pelo tigrado como a Mia. Há um mês, o bichano vizinho se atirou da janela. Quebrou o rabo, coitado.
Ouvi miados, mas não tinha o telefone da dona da loja. Acabei recebendo minha gatinha de volta só na manhã seguinte. Dona Nilza tinha comprado areia para forrar uma caixa e Whiskas sachê. Ela comeu tudo, disse a vizinha atenciosa.
Dona Nilza também é dona de gatos. Os donos de gatos são como uma seita. Eles comentam sobre a qualidade da areia, sobre a qualidade da ração, comparam os arranhões deixados por seus bichanos com os dos braços dos amigos. Os donos de gatos se reconhecem.
A gata Mia voltou silenciosa para casa. Com o focinho ralado e muito carente. Mas tem olhado a janela com atenção. Aprendi a deixar as frestas fechadas. E a dar bom dia mais vezes para os vizinhos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lá do alto

Subir 18 andares para olhar a cidade do alto. Estamos a 64 metros do chão, me explica o zelador. Camisa azul com botões brancos, cabelo ralo e grisalho. Fumaça cinza saindo do cigarro aceso no canto da boca.
Não, não é muito alto. Ele esteve em um prédio de 42 andares em Curitiba. Bem maior. Mas alto, mesmo, são aqueles que os aviões derrubaram nos Estados Unidos. Aqueles tinham mais de cem metros.
Esse aqui não é nem o mais alto da cidade. Mas a companhia de telefone celular está pagando 40 salários mínimos para instalar uma antena 3G ali no alto. Vinha bem. 40 salários mínimos vinham muito bem.
Dá pra ver bem a cidade lá de cima. Dá para ver os telhados sujos. As paredes descascadas. O estilo desengonçado daquele restaurante novo. Os carros que parecem de brinquedo. As pessoas correndo em um ritmo anormal, uma corrida lenta. Os carros rápidos andando numa pressa-lenta.
Sem som. Um filme de cidade em ritmo de modernidade sem som. Lá do alto, nada parece tão necessário. Tão premente. Tão bonito. Nem tão feio. Tão inútil. Tão importante.

É sempre bom olhar as coisas do alto.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Minha ausência resumida em quatro atos

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Na tristeza e na doença

A gata se espreguiça com a mesma lentidão que o teu corpo se conforma. São 15h e ainda está envolta nos mesmos cobertores de 12 horas atrás.
A fileira de copos meio esvaziados na cabeceira, os lenços usados e o termômetro completam o cenário. Estás doente, e a programação da TV não te salvará.
Nem precisa fingir canseira para avisar ao serviço que não irá trabalhar. Tua voz sai fraca, como um brinquedo sonoro cuja pilha está no final.
O monte de livros e revistas que trouxe pra cama só serve como suporte para a sopa requentada - ainda bem que as telentregas funcionam na cidade. Teus sonhos se misturam ao discurso no senado. Já não sabe se o sujeito bigodudo agride a mulher de óculos estranhos e blazer vermelho, quem era ele mesmo?, teu avô que te chamou pra tomar sorvete enquanto conhecia uma carreira de cavalos.
Desperta com a fronha molhada, te irrita com o barulhão dos carros na rua e com o raio de sol que insiste em desafiar a cortina. Pensa com o drama que só é permitido aos doentes: se eu morrer agora mesmo, ninguém vai sentir falta.
Mas teu telefone toca, querem saber como está, se não está faltando nada. Tomou remédio, fez gargarejo, tirou a temperatura, tapou-se bem?
Enfermagem telefonada. Doença moderna.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Numa segunda-feira qualquer

às 11h30 da manhã de uma segunda-feira qualquer teu passado pode te parar no meio da rua. de moletom cinza, de cabelo desgrenhado e aquelas mesmas calças cheias de bolsos que você viu tantas vezes.
teu passado vai te abraçar na calçada de uma cidade estranha e vai ser como se não tivessem passado cinco anos, dois anos, quanto tempo mesmo a gente não se vê? ele vai ter o mesmo cheiro, como se tivesse ficado no armário este tempo todo. o teu passado é como aquele vestido velho que você parou de usar porque não servia mais, mas só de olhar lembra todas as festas que foi com ele, até da vez que derrubou vinho tinto, e o sapato que usava para combinar.
teu passado foi a Havana, como vocês combinaram tantas vezes. ele tem um chapéu verde musgo com a estrela cubana e fotos que mostram che com os dizeres: hasta la victoria!
teu passado foi a Cuba, ao Peru, fez a trilha de Machu Picchu, pulou Carnaval no pelourinho, pegou sol em Varadero, subiu nas pedras de Bonito, foi até o ponto equidistante entre o atlântico e o pacífico sentir o frio que faz lá. teu passado seguiu adiante.
nessa cidade estranha, às 11h30 da manhã de segunda-feira, teu passado te condena a pensar: e se?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

As Pedras de Paraty

As pedras de Paraty tem uma função filosófica.Seu desenho irregular - que esconde um escorregão em cada desnível - nos obriga a pensar.
Impossível atravessar o centro do belo cenário histórica com o mesmo trote de cavalo que nos acostumamos nos grandes centros. Redondas e enganosas, estas pedras nos obrigam a reparar no que há em volta.
Vieram no fundo dos navios ainda no século XVII como lastro para a exportação de ouro que seguia para Lisboa. Foi o que me disse o negro com um grilhão no pescoço, sem camisa e com calças curtas feitas de juta, que passa o dia a dar informações e posar para fotos no Largo de Santa Rita, em frente à igreja, ao mar e à antiga cadeia.
Seculares, as pedras fazem os passantes terem cautela. Eu mesma perdi o equilíbrio, escorreguei em duas péras gorduchas, caí por cima de um japonês e fiz uma mulata com cabelo desgrenhado e roupa cor de laranja mostrar a dentição faltosa, me apontar e rir bem alto.
Além de proporcionar momentos de desequilíbrio cômico, este calçamento sinuoso nos ajuda a reparar na fachada das casas coloniais preservadas desde o século XVIII. Nos faz olhar a lombada de um livro na mão do sujeito que passa. Nos sapatos coloridos das moças. Nos cachecóis, mantas e lenços que adornavam o pescoço da maioria dos que vi por lá.
Com seus lenços e seus cigarros acesos, muitos arrotavam sábias observações, nos cafés e nas rodas de conversa que se formavam na rua. "Chico Buarque não é um autor, é um eu lírico", insistia um rapaz de chapéu para a moça de saia de bolinha.
Eu lírico ou não, Chico foi um dos personagens que fez a festa da literatura entrar em frenesi. Chegou à cidade pouco antes da mesa, marcada para as 19h de sábado, com Milton Hatoum e Samuel Titan Jr.
Não adiantava tentar formar fila para comprar ingressos. Os lugares estavam esgotados, dizia o cartaz na bilheteria, sob o qual a moça de camisa laranja ria com sádica satisfação.
Aliás, a falta de espaço para comportar os interessados em ver os autores foi, para mim, emblemática. Por mais que o festival ganhe contorno de evento pop, o acesso ainda é restrito. Os 550 lugares do lado de lá do rio Pereque Açu, na Tenda de Autores - como se chamava o picadeiro em que ocorriam os debates - ficou pequeno para as 35,2 mil pessoas que participaram das atividades em Paraty nos cinco dias de Flip, o público estimado para a organização do evento.
Muitos ingressos esgotaram-se ainda em junho, quando começaram a ser vendidos. Eventualmente, apareciam lugares para a programação que se estava interessada. Só que era preciso ficar atento: além dos pequenos que passavam oferecendo ingressos amarrotados com desconto para estudante para quem estivesse na fila, havia gente da organização - uniformizada - vendendo entradas por fora. O mesmo bom e velho jogo dos cambistas de jogo de futebol e grandes shows, em um evento de literatura, para senhoras de colar de pérola e intelectuais de blazer xadrez.
Assim, quem não teve a sorte de conseguir ingresso para ver Chico Buarque acabou improvisando. Os desalojados transformaram em arquibancada o tablado de acesso ao telão externo, onde seria exibida a palestra. Moças crespas, lisas, velhas loiras e morenas se arrumavam no chão mesmo, escoradas nas lixeiras, cerca de uma hora antes de a aparição de Chico se confirmar.
A fila para autógrafos também se formou cedo, antes de a palestra de confirmar. Cem senhas foram distribuídas, sob a ameaça de que Chico talvez não aparecesse. Não, ele não tinha confirmado presença. E as orientações eram rígidas: nada de fotos, de pose ou de pedido de dedicatórias. Ele ia apenas assinar seu nome, pronto.
Assim, 150 leitores conseguiram os ilustres rabiscos. Fiquei entre eles e vi uma mocinha loira, de vestido bege, se desesperar em frente à organizora que insistia: "Ele só vai autografar quem tem a senha", repetia, no meio do tumulto que se formou.
"Mas eu vim aqui só para isso", desesperava-se a moça. Segui em frente. Já chamavam meu número. Em frente ao Chico, eu emudeci. Estavam ali os dois olhos azuis e uma cachoeira de rugas, para usar uma expressão que está lá na página 151 de "Leite Derramado". Meu diálogo foi breve. E o frenesi seguiu.
Saí com uma obra autografa e dois amigos da fila. Descobrimos ali que estávamos todos hospedados no mesmo albergue. E tanta canseira em mais de duas horas de fila tinha mesmo que acabar em uma boa conversa de botequim.

domingo, 5 de julho de 2009

Eu matei um homem

Sábado à noite eu matei um homem.
Envolvi-o com meus gestos. Convidei-o para entrar. Sentei-o no sofá.
Desfiei muitas palavras. Sem mais, nem menos, puxei o gatilho.
O sangue começou a brotar pequeno, como um botão, do centro do seu peito. Me abracei a ele, sangrando, e fiquei assim até que o líquido espesso secasse.
Guardei o corpo no quarto. Meu homem morto no armário.
Fica ali, me esperando, toda a vez que volto pra casa.