Comprei um pacote de bombons Ferrero Rocher e mandei embalar com papel de presente dourado. A moça do supermercado colocou uma fita para enfeitar o pacote. Caprichou e cortou as pontas do laço criando um triangulo invertido.
Saí com o pacote na mão, receosa da minha escolha. Pensei em comprar velas. Sabonetes perfumados. E se ela estiver de dieta? Se for diabética? Arrisquei.
Foi a primeira vez que comprei um presente para uma vizinha. Quando era criança, a minha mãe me mandava entregar panetones na porta da casa ao lado. Morria de vergonha.
Entrei pisando firme na floricultura e pedi para falar com a dona Nilza. A vendedora anunciou em uma sala nos fundos da loja:
_ Dona Nilza, tem uma moça aqui que quer falar com a senhora.
Foi a senha para que eu pudesse entrar.
Expliquei que era um docinho para agradecer a atenção com a gata Mia. Aquela felina suicida.
A dona Nilza sorriu. Disse que eu não precisava ter me incomodado.
Quando voltei da praia no domingo, emburrada por ter que deixar a areia e a água para trabalhar, encontrei só um bilhetinho no meu apartamento:
Vizinha!
Fomos informados pelo apartamento 103 que a sua gata caiu da janela e que a dona da loja de presentes a recolheu.
Apartamento 203
Ana e Tiago
Saí na mesma hora para a rua, mas a loja estava fechada no domingo. A vizinha regava as plantas de chambre, na sacada. Ela disse que a gata Mia tinha caído no toldo e, depois, no chão. Mas que passava bem.
A vizinha de chambre também tem um gato de pelo tigrado como a Mia. Há um mês, o bichano vizinho se atirou da janela. Quebrou o rabo, coitado.
Ouvi miados, mas não tinha o telefone da dona da loja. Acabei recebendo minha gatinha de volta só na manhã seguinte. Dona Nilza tinha comprado areia para forrar uma caixa e Whiskas sachê. Ela comeu tudo, disse a vizinha atenciosa.
Dona Nilza também é dona de gatos. Os donos de gatos são como uma seita. Eles comentam sobre a qualidade da areia, sobre a qualidade da ração, comparam os arranhões deixados por seus bichanos com os dos braços dos amigos. Os donos de gatos se reconhecem.
A gata Mia voltou silenciosa para casa. Com o focinho ralado e muito carente. Mas tem olhado a janela com atenção. Aprendi a deixar as frestas fechadas. E a dar bom dia mais vezes para os vizinhos.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
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